Money Fact12/09/2026 • 14:35

Pedro Ramalho transforma motel em negócio de experiência e mira novos mercados

À frente do The Eye Motel, empresário aposta em marca, comunidade e comportamento para reinventar a motelaria e avalia novos caminhos para expandir sua visão de negócios Há negócios que nascem de uma oportunidade de mercado. Outros surgem…

À frente do The Eye Motel, empresário aposta em marca, comunidade e comportamento para reinventar a motelaria e avalia novos caminhos para expandir sua visão de negócios


Há negócios que nascem de uma oportunidade de mercado. Outros surgem quando um empreendedor consegue enxergar potencial justamente onde poucos estão olhando. A trajetória de Pedro Ramalho à frente do The Eye Motel se aproxima mais da segunda categoria.


Ao assumir o empreendimento, o empresário encontrou um negócio que precisava ser reconstruído não apenas fisicamente, mas também em sua operação, comunicação e posicionamento. O desafio, porém, acabou revelando uma oportunidade maior: transformar uma empresa tradicional em uma marca de experiência e, a partir dela, repensar a própria relação do público com a motelaria.


Para Pedro, empreender no Brasil exige muito mais do que capital e uma boa ideia. Em um ambiente marcado por carga tributária, burocracia, custos operacionais, mão de obra e mudanças aceleradas no comportamento do consumidor, a capacidade de adaptação passou a ser um ativo estratégico. “Empreendedorismo deixou de ser apenas gestão. Hoje envolve também comunicação, experiência, comunidade e capacidade de antecipar comportamento”, resume.


Na sua leitura, o consumidor contemporâneo não quer apenas comprar um produto ou contratar um serviço: quer entender a história por trás da marca, reconhecer seus valores e, em alguma medida, sentir-se parte dela.


Foi justamente essa lógica que norteou a transformação do The Eye. Em pouco mais de um ano, segundo o empresário, o negócio registrou um crescimento expressivo de faturamento e ampliou sua presença digital, alcançando inclusive pessoas que tradicionalmente não se identificavam como consumidoras de motéis.


A estratégia passou por uma mudança de percepção: em vez de tratar o estabelecimento apenas como hospedagem, Pedro passou a trabalhar arquitetura, ambientação, iluminação, gastronomia, música, conteúdo e atendimento como elementos de uma mesma experiência.


Até os bastidores ganharam protagonismo. Reformas, decisões, dificuldades e mudanças passaram a ser compartilhadas com o público, criando uma espécie de comunidade em torno da construção da marca.


A visão, entretanto, não termina nas suítes. Novos espaços inspirados em destinos e culturas diferentes, expansão gastronômica e projetos que aproximam música, audiovisual, moda e lifestyle fazem parte dos próximos movimentos. Um deles traduz especialmente bem essa estratégia: um álbum autoral inspirado nas suítes do motel, atribuindo também uma identidade musical a cada ambiente.


É dentro dessa visão mais ampla que Pedro também começa a olhar para a Motelovers de outra maneira. A iniciativa, que nasceu conectada ao universo da motelaria, pode futuramente ganhar novos significados e até se transformar em uma marca própria. O empresário conta que já pensa em diferentes possibilidades para o nome, mas prefere preservar as ideias por enquanto. “Estou pensando muito sobre a Motelovers se tornar uma marca. Já tenho várias ideias, mas ainda é cedo para compartilhar”, afirma.


A possibilidade revela uma característica importante da visão de Pedro: antes de transformar uma ideia em produto ou negócio, existe um período de observação, construção e entendimento de como aquele conceito pode se conectar com o público. No caso da Motelovers, a intenção é justamente não antecipar etapas e permitir que o projeto encontre seu formato no momento certo.


A lógica empresarial de Pedro parte de uma premissa simples, mas pouco explorada: marcas fortes não precisam necessariamente competir pelo menor preço quando conseguem criar algo difícil de comparar. Em vez de concentrar a estratégia apenas em eficiência operacional, o empresário aposta em identidade, narrativa e pertencimento como ferramentas de diferenciação.


“Eu sempre penso: por que alguém deveria prestar atenção nisso? Por que deveria lembrar dessa marca? Por que deveria falar sobre ela?”, explica. A pergunta revela uma visão que aproxima empreendedorismo e comunicação: antes de transformar atenção em faturamento, é preciso conquistar relevância. Para ele, ouvir o público e mostrar processos também faz parte da construção de valor. O consumidor deixa de ser apenas alguém que compra e passa a acompanhar a evolução do negócio.


Essa perspectiva ajuda a explicar por que a presença digital ocupa espaço tão importante em sua estratégia. Ao abrir os bastidores do The Eye, Pedro transformou parte da própria construção empresarial em conteúdo. O que poderia ser apenas uma reforma passou a funcionar também como narrativa, criando expectativa, identificação e curiosidade em torno da marca.


O movimento acompanha uma mudança mais ampla no comportamento do consumidor. Na visão do empresário, a motelaria sempre esteve presente na cultura brasileira, mas durante décadas foi comunicada principalmente a partir do tabu. A oportunidade, portanto, estaria em ampliar a conversa e incorporar elementos que já fazem parte de outros segmentos de consumo, como design, gastronomia, entretenimento, tecnologia, audiovisual e lifestyle.


É nesse ponto que a estratégia deixa de ser apenas uma história de recuperação de um empreendimento e passa a ganhar uma dimensão de mercado. Pedro não fala somente em fazer o The Eye crescer, mas em contribuir para a transformação de uma categoria inteira.
O próximo capítulo dessa trajetória não está necessariamente restrito à motelaria.

Hospitalidade, entretenimento, moda, gastronomia, audiovisual e tecnologia estão entre os segmentos que despertam o interesse do empresário, especialmente quando existe uma conexão entre produto, narrativa e comunidade.


A Motelovers pode fazer parte desse movimento no futuro. Hoje, porém, o projeto está mais próximo de uma ideia em construção do que de uma marca pronta. Pedro prefere manter as possibilidades em aberto, observando como o conceito pode evoluir antes de definir seus próximos passos.


No longo prazo, o objetivo é ainda mais ambicioso. O empresário quer construir empresas capazes de sobreviver independentemente de sua imagem pessoal, mas que preservem a visão responsável por sua criação. A preocupação com legado aparece ao lado da preocupação financeira: mais do que negócios que faturam, Pedro quer construir marcas que permaneçam.


Para isso, também pretende aprofundar estudos sobre comportamento das novas gerações e entender como mudanças culturais estão influenciando a hospitalidade e a própria percepção sobre a motelaria. É uma abordagem que coloca dados, comportamento e cultura ao lado da gestão tradicional.


No fim, talvez o aspecto mais interessante da trajetória de Pedro Ramalho esteja justamente na mudança de escala de sua ambição. O ponto de partida foi um estabelecimento que precisava ser reconstruído. O projeto que se desenha agora é maior: transformar uma empresa em marca, fortalecer uma comunidade e, a partir dessas experiências, identificar quais novos caminhos podem surgir.


“O The Eye começou como a transformação de um motel. Hoje eu enxergo como parte da transformação de uma categoria inteira”, define. E é nessa mudança de perspectiva que está a principal aposta do empresário: perceber que, em um mercado cada vez mais disputado por atenção, experiência e relevância podem valer tanto quanto o produto que está sendo vendido.

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