Psicanalista Luz Marina Toledo explica como os vínculos construídos na infância podem influenciar escolhas amorosas, comportamentos e conflitos
Os primeiros vínculos afetivos podem deixar marcas na forma como cada pessoa percebe o amor, a confiança, o cuidado e a intimidade ao longo da vida. Essas referências, construídas principalmente nas relações com pais ou figuras parentais, podem influenciar comportamentos, expectativas e escolhas nos relacionamentos, embora não determinem como cada indivíduo irá se relacionar no futuro.
Para a psicanalista e especialista em casais e relacionamentos Luz Marina Toledo, compreender a maneira como uma pessoa estabelece vínculos também envolve olhar para a própria história. Experiências vividas na infância podem participar da formação de modelos emocionais que são levados para relações familiares, amizades e, especialmente, relacionamentos amorosos.
“Nenhuma escolha é feita de forma isolada ou puramente racional. Por trás de cada decisão existe uma complexa teia de influências inconscientes, construída a partir das nossas experiências mais primitivas e também das crenças e expectativas sociais e culturais que carregamos”, explica.
Os primeiros vínculos
Desde o nascimento, o indivíduo depende dos cuidadores para proteção, alimentação e segurança. A maneira como essas figuras estabelecem vínculos, demonstram afeto, impõem limites, lidam com conflitos e expressam emoções pode contribuir para a construção de referências sobre presença, ausência, confiança e pertencimento.
Essas experiências podem reaparecer, de diferentes formas, nas relações adultas. É o caso de pessoas que percebem uma repetição de determinados comportamentos ou que se sentem atraídas por dinâmicas afetivas semelhantes, mesmo quando conscientemente desejam relações diferentes.
“O vínculo inicial com nossos pais ou figuras parentais tem um papel fundamental na formação da nossa visão sobre o amor. É a partir dessas experiências que construímos percepções sobre afeto, intimidade e confiança, que podem influenciar nossas escolhas futuras”, afirma Luz.
A especialista ressalta, porém, que reconhecer essas influências não significa estar condenado a repetir padrões. A compreensão da própria história pode ajudar a identificar comportamentos e elaborar novas formas de estabelecer vínculos.
Paixão e companheirismo
Outro aspecto importante nos relacionamentos amorosos é a diferença entre paixão e companheirismo. O amor erótico envolve desejo, atração, admiração e intensidade emocional. Já o amor fraterno está relacionado à amizade, cumplicidade, respeito, cuidado e parceria.
“Uma relação precisa encontrar equilíbrio entre o amor erótico e o amor fraterno. O desejo e a atração são importantes, mas a amizade, o cuidado, o respeito e a parceria também são fundamentais para a construção de um vínculo consistente”, destaca.
Com o passar do tempo, a intensidade da paixão pode se transformar sem que isso represente necessariamente o fim do sentimento. Nesse processo, a comunicação sobre expectativas, desejos e necessidades pode contribuir para a manutenção da conexão entre o casal.
Quando os conflitos aparecem
Conflitos fazem parte da dinâmica dos relacionamentos. Diferenças de personalidade, expectativas, rotina, questões financeiras, familiares e sexuais podem gerar tensões. A dificuldade surge quando essas situações passam a alimentar ciclos de acusações, afastamento, ressentimento ou silêncio.
Segundo Luz, algumas discussões podem mobilizar sentimentos mais profundos, como medo de rejeição, abandono, desvalorização ou necessidade de reconhecimento. Nesses casos, compreender o que está por trás da reação pode ser importante para interromper padrões recorrentes.
Traição envolve diferentes fatores
A traição pode provocar uma das crises mais complexas dentro de um relacionamento. Embora muitas vezes seja associada à falta de amor, o comportamento pode estar relacionado a diferentes fatores emocionais e individuais, como necessidade de validação, carência afetiva, impulsividade e dificuldades de regulação emocional.
“A traição não é uma resposta automática à falta de amor. Algumas pessoas traem mesmo amando. É importante compreender que estamos diante de um acontecimento multifatorial”, explica.
Para a especialista, compreender os possíveis fatores envolvidos não significa retirar a responsabilidade de quem trai. A decisão de trair pertence à pessoa que pratica o ato, e quem é traído não deve ser responsabilizado pela escolha do parceiro.
É possível reconstruir a relação?
Após uma traição, alguns casais decidem terminar, enquanto outros optam por tentar reconstruir a relação. Não existe uma única resposta, e a decisão depende da história do casal, das circunstâncias do acontecimento e da disposição de ambos para lidar com as consequências.
“Depois de uma traição, o casal precisa encontrar um destino para aquilo que aconteceu. Pode existir a possibilidade de reconstrução, mas também pode chegar o momento em que os dois percebem que não há condições de continuar”, afirma.
A terapia individual ou de casal pode contribuir para a elaboração da dor, a compreensão de padrões de comportamento e a tomada de decisões mais conscientes. Para Luz Marina, o processo terapêutico não precisa ter como objetivo preservar o relacionamento a qualquer custo.
“A terapia não serve apenas para salvar um relacionamento. Ela também pode ajudar uma pessoa a compreender a própria história, elaborar uma dor, reconhecer seus padrões e tomar decisões mais conscientes sobre a vida afetiva.”
Compreender a própria história, segundo a psicanalista, não significa procurar culpados no passado, mas reconhecer as experiências que participaram da formação emocional de cada indivíduo.
“Quando conseguimos compreender as influências inconscientes que participam das nossas escolhas, deixamos de apenas repetir determinados padrões e podemos começar a construir relações mais autênticas, equilibradas e genuínas”, conclui.
Sobre Luz Marina Toledo
Luz Marina Toledo é psicanalista formada pela Sociedade Paulista de Psicanálise, especialista em atendimento para casais e famílias pelo SEDES/SP e especialista em Relacionamentos pelo método Cristiane Schumann. Atua com pessoas e casais em conflitos afetivos, crises, dificuldades de comunicação, padrões repetitivos e situações de ruptura.
Instagram: @luzmarinapsicanalista
Atendimento e informações: luzmarina.terapeutas.site